À primeira vista, a resposta parece óbvia: se existe uma opção para pagar menos imposto, por que escolher uma alternativa mais cara?
Entretanto, com a implementação da Reforma Tributária e as novas possibilidades relacionadas ao aproveitamento de créditos de IBS e CBS, essa decisão pode não ser tão simples quanto parece.
Para algumas empresas optantes pelo Simples Nacional, será necessário avaliar não apenas a carga tributária da própria empresa, mas também como a escolha do modelo de tributação impacta a geração e o aproveitamento de créditos ao longo da cadeia de negócios.
Dessa forma, em determinados cenários, a opção que apresenta o menor valor de imposto não necessariamente será a mais estratégica para o negócio.
Para entender melhor essa diferença, vamos analisar um exemplo prático.
A mesma empresa, a mesma venda e três cenários diferentes
Imagine uma empresa que realiza uma venda de R$ 20.000,00.
O valor da venda permanece o mesmo, assim como a empresa. Entretanto, o resultado tributário pode mudar conforme o cenário considerado.
Para facilitar a comparação, vamos analisar três possibilidades:
- Simples Puro;
- Híbrido sem créditos;
- Híbrido com créditos.
A partir desses três cenários, os números mostram por que essa análise merece atenção.
Para entender melhor como o regime tributário pode impactar diferentes empresas, confira também nosso conteúdo sobre regime tributário e as diferenças entre Simples Nacional, Lucro Presumido e Lucro Real.
Simples Puro
No primeiro cenário, temos o Simples Puro, em que a carga tributária considerada no exemplo fica em aproximadamente 9,65%.
Assim, para uma venda de R$ 20.000,00, o valor dos tributos representa:
R$ 1.930,00 em tributos
À primeira vista, esse parece ser claramente o cenário mais vantajoso. Afinal, entre as três possibilidades, é o menor valor.
Porém, ainda precisamos analisar os demais cenários antes de chegar a uma conclusão.
Híbrido sem créditos
No segundo cenário, temos o modelo Híbrido sem aproveitamento de créditos.
Considerando novamente uma venda de R$ 20.000,00, a carga tributária pode chegar a aproximadamente 16,64%.
Na prática, isso representa:
R$ 3.328,00 em tributos
A diferença em relação ao Simples Puro chega a:
R$ 1.398,00 a mais em relação ao Simples Puro.
Até aqui, a escolha parece bastante óbvia. Afinal, por que uma empresa optaria por uma alternativa que resulta em uma carga tributária maior?
Contudo, existe ainda um terceiro cenário que pode alterar essa comparação.
Híbrido com créditos
Agora, considere uma empresa que esteja no modelo Híbrido e tenha possibilidade de aproveitar créditos de IBS e CBS.
Nesse caso, o valor bruto dos tributos apresentado no exemplo é de aproximadamente R$ 3.328,77.
Por outro lado, a empresa possui R$ 855,10 em créditos.
Consequentemente, após considerar esses créditos, o valor efetivamente pago fica em aproximadamente:
R$ 2.473,66
Com isso, a carga tributária efetiva passa a ser de aproximadamente 12,37%.
Compare os três cenários
| Cenário | Venda | Tributos | Carga aproximada |
|---|---|---|---|
| Simples Puro | R$ 20.000,00 | R$ 1.930,00 | 9,65% |
| Híbrido sem créditos | R$ 20.000,00 | R$ 3.328,00 | 16,64% |
| Híbrido com créditos | R$ 20.000,00 | R$ 2.473,66 | 12,37% |
Portanto, os números mostram uma diferença significativa entre os cenários.
Embora a operação comercial permaneça a mesma, o resultado tributário muda conforme a estrutura adotada e a possibilidade de aproveitamento de créditos.
O que muda quando existem créditos?
É justamente aqui que a análise começa a ficar mais interessante.
Quando falamos em créditos de IBS e CBS, não estamos tratando apenas da aquisição de mercadorias. A análise também envolve as aquisições de bens e as contratações de serviços realizadas pela empresa, considerando a documentação fiscal e os requisitos necessários para a apropriação dos respectivos créditos.
Por esse motivo, a forma como a empresa estrutura suas operações de entrada também passa a ser relevante.
Além do faturamento e do imposto incidente sobre as vendas, é necessário avaliar como a empresa adquire bens, contrata serviços, se relaciona com seus fornecedores e prestadores e quais créditos poderá efetivamente apropriar.
Consequentemente, esse conjunto de fatores pode alterar de maneira significativa o resultado da análise tributária.
Menos imposto significa necessariamente uma decisão melhor?
Voltando ao nosso exemplo:
Simples Puro: R$ 1.930,00.
Híbrido com créditos: R$ 2.473,66.
Se considerarmos somente o valor pago, o Simples Puro parece ser a escolha evidente.
Entretanto, será que uma decisão tributária pode ser analisada olhando exclusivamente para esse número?
É justamente essa a questão que a Reforma Tributária coloca para muitas empresas.
Nesse contexto, a escolha não deve considerar apenas quanto a empresa paga de imposto, mas também os efeitos que essa decisão produz dentro da própria operação e da cadeia em que está inserida.
Por isso, uma alternativa com uma carga tributária maior não deve ser automaticamente descartada antes que todos os seus impactos sejam avaliados.
A análise precisa ir além da alíquota
A Reforma Tributária traz uma mudança importante na lógica de análise tributária.
Nesse novo cenário, a empresa precisará olhar para sua operação de forma mais ampla. Isso significa considerar não apenas suas receitas, mas também suas aquisições, contratações de serviços, fornecedores, clientes e a possibilidade de geração e aproveitamento de créditos.
Como resultado, duas empresas com faturamento semelhante podem chegar a conclusões completamente diferentes.
A melhor escolha dependerá, portanto, da realidade de cada negócio.
Por essa razão, antes de decidir entre um modelo ou outro, é fundamental realizar uma análise tributária individualizada, baseada em números e considerando a estrutura operacional e comercial da empresa.
Afinal, pagar mais pode ser melhor?
Se, no nosso exemplo, o Simples Puro representa R$ 1.930,00 e o Híbrido com créditos representa R$ 2.473,66, por que uma empresa consideraria pagar mais?
A resposta envolve fatores que vão além da simples comparação entre os valores dos tributos.
Estamos falando de créditos, cadeia de negócios, clientes, fornecedores e, principalmente, estratégia tributária.
Assim, antes de concluir que “pagar menos é sempre melhor”, é necessário compreender o impacto completo de cada escolha.
Essa análise pode, inclusive, mudar a forma como sua empresa enxerga o Simples Nacional diante da Reforma Tributária.
E se a opção aparentemente mais cara for, na verdade, a mais estratégica?
Essa é a próxima questão que precisamos analisar.
No próximo Dia de Reforma, vamos avançar nessa discussão e mostrar o que pode estar por trás dessa decisão.
Mas uma coisa já fica clara: não existe uma escolha tributária que seja melhor para todas as empresas.
Cada negócio possui uma realidade, uma estrutura de custos, fornecedores, prestadores de serviços, clientes e operações. Por isso, a decisão entre pagar mais ou menos imposto precisa ser baseada em uma análise tributária personalizada, e não apenas na comparação entre alíquotas.
Na Eichner Contabilidade, nosso Planejamento Tributário parte justamente dessa análise: estudamos a realidade da empresa, simulamos diferentes cenários e avaliamos os impactos tributários para identificar oportunidades e apoiar uma decisão mais estratégica para o negócio.
Sua empresa não precisa escolher no escuro. Precisa escolher com números, planejamento e estratégia.
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